Espiritualidade cristã: O perdão

Ao longo da vida, certamente, passamos por situações que nos deixam marcas dolorosas: frustações, quebras de confiança, palavras atravessadas ou mal entendidas, e, por vezes, esses machucados, apesar de aparentemente inofensivos, geram dores que perduram por anos. Mas o que fazer diante dessas feridas? Existe solução para tal problema? O melhor tratamento para essas realidades chama-se perdão.

E o que é perdoar? A origem da palavra vem do latim perdonar, que é a junção das palavras ‘per’ (algo elevado ao maior grau) e ‘donar’ (dom), ou seja: perdoar é doar em plenitude. O máximo grau da doação, do dom, é a vida, portanto, o perdão restitui a vida daquele que foi ferido e também daquele que feriu. Por essa característica renovadora, o perdão é uma importante porta para a cura interior e muitas vezes para a cura física, já que grande parte dos males da alma também se refletem no corpo.

Nesse difícil caminho, existem alguns passos que podem nos ajudar a encontrar uma direção acertada:

O primeiro e mais fundamental é decidir-se em perdoar. Algo que nos motiva a dar esse passo é saber que a falta de perdão gera um grande mal em nós, e que superá-lo nos torna mais livres. Independente da postura do agressor, eu me decido em perdoar porque desejo deixar de ser escravo daquela pessoa, situação, instituição, etc.

O segundo passo consiste em ‘esquadrinhar’ a dor, reconhecendo-a, aceitando-a e também compreendendo exatamente o que causou a  mágoa diante daquela realidade. Por exemplo, se somos traídos por alguém que amamos, o que de fato nos fere: a traição em si, o sentimento de abandono ou rejeição, a mentira, o ser enganado? Essa fase envolve bastante autoconhecimento e pode ser decisiva na localização das raízes de aprisionamento mais profundas de nossa alma.

O terceiro passo é perdoar a si mesmo por ser frágil. Muitas vezes nos sentimos excessivamente culpados pelas feridas que nos são abertas: fui ingênuo demais, tolo demais, confiei demais. É preciso compreender e aceitar que todos são humanos e passíveis de erro, e isso não nos faz piores e nem diferentes de ninguém.

O quarto passo é buscar compreender as razões do agressor. Será que ele teve um dia difícil? Será que sua criação o ensinou a agir desse jeito? Será que ele também passou por essa situação e não sabe como fazer de forma diferente? Se humanamente não houver justificativas convincentes, a nossa razão deverá ser a filiação divina: eu o perdoo porque ele, assim como eu, é filho de Deus. Outra coisa interessante é procurar dar sentido à ferida. Em que ela pode me fazer crescer? Por causa dela, em que posso ser melhor?

O quinto passo é enfrentar a dor em atos. Isso geralmente implica em evitar as pequenas vinganças cotidianas: se negar a prestar favores, não permanecer no mesmo ambiente, ignorar a existência da outra pessoa, dentre tantas outras maneiras que temos de fugir do enfrentamento e nos fechar ainda mais na amargura.

Por fim, o sexto passo é ponderar a continuidade da relação. O perdão faz com que deixemos de minar interiormente, mas não nos obriga a ter a mesma relação de antes ou mesmo a manter alguma relação com aquele que nos feriu. A grande questão é que a lembrança do ocorrido já não gera mais dor, e por isso podemos seguir em frente disponíveis a amar o que um dia nos fez sofrer e a criar relacionamentos mais livres e confiantes.

É importante lembrar que nessa jornada contamos com o auxílio divino. Com a graça de Deus, que superou a morte para nos libertar, podemos vencer todas as mortes interiores que nos afligem. E apesar de árdua e pouco prazerosa,  a via do perdão é extremamente compensadora.

Julia Klopper – discípula da Comunidade Católica dom de Deus.

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