A missão da masculinidade cristã

 

Atualmente vemos muitos debates sobre o papel da mulher e do homem nas relações, na casa, nos locais de trabalho e na sociedade de modo geral. Mas qual é o papel do homem? O que é a masculinidade? Qual é a sua missão?

O primeiro passo para encontrar estas respostas é reconhecer que a masculinidade faz parte da identidade do homem, que “é muito mais do que um documento, é um registro na alma e no corpo” (GONÇALVES, 2016).

 

O chamado à masculinidade

Como vemos em 1Reis 2, 2-3a, Davi, antes de morrer, dá suas últimas instruções ao seu filho Salomão: “Sê corajoso e comporta-te como homem! Guarda os preceitos do Senhor, teu Deus”. A mensagem do pai Davi é a mensagem dada por Deus a cada homem para que assuma sua identidade masculina. A figura do homem comporta a responsabilidade de em tudo seguir a lei de Deus e ser corajoso. Como vemos em Gênesis 2, 15, o homem é chamado por Deus a cultivar e a guardar.

Para viver seu papel, no entanto, o homem necessita já no início de sua vida fazer o esforço de afastar-se, no sentido psicológico, do modelo da figura materna para que possa exercer sua masculinidade, assim como a figura paterna. É o seu ESTO VIR (seja homem)! O esforço estará sempre presente na identidade masculina.

 

O modelo de homem cristão

A força é uma das principais características da masculinidade. Durante toda a sua vida o homem precisará aprender a usá-la para vencer seus desafios. Por este motivo, durante a infância é comum que o menino fantasie ser um guerreiro, lutando e dando sua vida por um ideal, por um povo. Assim também aprende a dosar sua força. Essa força do corpo do homem, porém, é apenas sinal da verdadeira força impressa na masculinidade: a interior. É importante que se compreenda que a verdadeira força masculina não se revela através de braços fortes ou de corpos malhados, mas nas suas atitudes, no seu caráter.

No filme “Até o último homem” (2007), o seu personagem principal, Desmond Doss, deseja entrar para o exército, mas, além de não aceitar usar armas, não apresenta os atributos físicos que se esperaria de um oficial. Sua permanência em um local de guerra era totalmente improvável. Sua verdadeira força, porém, é expressa na confiança que possui em Deus e em sacrificar-se para salvar os seus companheiros, até o último homem! E este filme é baseado em uma história real! Desmond decide ir à guerra com o único – e improvável – objetivo de salvar vidas. E consegue! Sua força interior revela-se na sua determinação em salvar cada um daqueles homens.

Assim como foi para aquele oficial do exército, a imagem perfeita da masculinidade é o próprio Cristo. Como afirma São Paulo (Efésios 5, 25), os homens devem amar as mulheres como Cristo, que amou a sua Igreja e se entregou por ela. Ser homem, portanto, é amar e entregar-se pelo bem do outro como o faria por si mesmo.

A verdadeira masculinidade está em ser como Cristo, modelo de homem dedicado ao trabalho; forte para resistir às tentações; corajoso; líder; fiel e casto; caridoso; mestre; que mantém sua palavra até o fim e é disposto a fazer sacrifícios, a dar a própria vida!

O bispo Thomas J. Olmsted (2015, p. 7, tradução nossa) afirmou: “Aqui encontra-se a masculinidade em sua totalidade; cada homem católico deve estar preparado para manter-se firme sobre a brecha, entrar no combate espiritual, defender a mulher, os filhos e os demais contra a adversidade e armadilhas do demônio”.

 

A realização na paternidade

A vocação masculina pode ser resumida na palavra paternidade, pois, assim como afirmou o Papa Francisco (26/06/2013), o desejo de paternidade está inscrito nas fibras mais profundas de um homem.

Todo homem é chamado a ser pai, seja na família (matrimônio), seja de multidões (sacerdócio) ou espiritual (celibato). A paternidade é marca da masculinidade, daquele que se entrega pelo outro. Por isso a vocação do homem passa pelo desejo de tornar-se pai.

Continua o Papa Francisco: “Quando um homem não tem esta vontade, algo falta nesse homem. Algo não funciona. Todos nós, para ser plenos, maduros, devemos sentir a alegria da paternidade, também nós os celibatários. A paternidade é dar a vida aos demais, dar vida, dar vida…”.

Olmsted (2015, p. 25, tradução nossa) afirma ainda que “Se não abraças a vocação de esposo e pai que Deus planejou para ti; estarás preso na impotência de uma ‘semente’ que se recusa a morrer, se recusa a dar vida”.

Portanto, ser pai é, chamado de todo homem. E, mesmo que de maneira imperfeita, a paternidade humana é um modo de refletir a paternidade de Deus (OLMSTED 2015, p.24).

 

Complementaridade e imagem de Deus

Jason Evert (2008) diz que “quando homens e mulheres vivem a autêntica masculinidade e feminilidade, eles revelam algo de Deus para o mundo”, pois está inscrito na natureza do homem e da mulher a imagem de Deus, mas esta imagem só pode ser revelada através da vivência autêntica da masculinidade e da feminilidade.

Sabendo que há complementaridade entre o homem e a mulher, ressalta-se a importância das diferenças e da vivência coerente do papel de cada sexo.

O homem é, com suas características físicas e psicológicas próprias, dotado de força,  motivado a realizar sacrifícios, a proteger, guardar, cuidar, garantindo a existência e proteção da mulher e da criança; transmite segurança; por possuir mais disposição em sua natureza para a racionalidade, exerce maior domínio da razão sobre as ações e sentimentos; possui mais capacidade para resistir e vencer obstáculos.

O homem segundo o coração de Deus é aquele que, assim como os grandes homens da Bíblia, põe em prática a palavra de Deus e está disposto a empreender, a trabalhar para a salvação.

 Assim como todo homem, Cristo aprendeu de outro homem a viver sua masculinidade. São José foi exemplo para Cristo e deve também ser para os homens de todos os tempos. Viver as virtudes de São José é espelhar-se naquele que soube viver e realizar a vontade de Deus através da vivência perfeita da sua masculinidade.

Que a exemplo de São José e de tantos outros santos, os homens possam compreender e viver sua masculinidade como um dom e uma missão neste mundo, alegrando-se e consagrando a Deus os sacrifícios necessários para a sua realização.

Giselle Estupinhã – discípula da Com. Católica dom de Deus.

Referências:

[1] BARROS, Ana Paula. Diferenças espirituais e de dons entre o homem e a mulher. Disponível em:

<http://www.salusincaritate.com/2016/04/homem-e-mulher-zarakh-e-nekeva.html>. Acesso em: 20/11/2017.

[2] EVERT, Jason. Teologia do Corpo Dele e Dela. Tradução: Isabela Natif. Pensilvânia: Ascension Press, 2008.

[3] GONÇALVES, Adriano. Quero uma amor maior. São Paulo: Editora Canção Nova, 2016.

[4] NERY, Rogério. Quais são seus referenciais de masculinidade?  Disponível em: <http://www.homemcatolico.com.br/quais-sao-seus-referenciais-de-masculinidade/>. Acesso em: 22/11/2017.

[5] OLMSTED, Thomas J. Firme em la brecha: Una exhortación apostólica a los hombres católicos, mis hijos espirituales em la Diócesis de Phoenix.  Disponível em: < http://firmeenlabrecha.org/wp-content/uploads/2016/09/Firme-en-la-brecha-Version-Final.pdf>. Acesso em: 22/11/2017.

[6] RICARDO, Padre Paulo. Masculinidade – o que está acontecendo com os homens? Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=6WyVLNjNZy4>. Acesso em: 21/11/2017.

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