ARTE EM TEMPOS DE CRISE

Cláudio Pastro (1948-2016), artista plástico especializado em artes sacras, dizia que a beleza revela algo além do imediato, pois através dela “dá-se uma catarse, uma fusão; abre-se um horizonte que ultrapassa regras, palavras e emoções e gera novos encontros a ponto de encantar e seduzir e tocar profundezas não percebidas pela razão”. E isto se dá, pois o sentido da beleza está ligado ao sagrado.

Deus é o modelo exemplar de criador: cria a partir de si mesmo, dá o próprio ser à sua criação. O homem por sua vez é chamado a ser artífice da criação, ou seja, tem a tarefa de plasmar-se ao Criador e exercer um domínio criativo sobre o universo que o circunda. O seu direito à beleza, portanto, é o direito da criatura humana de reproduzir sua natureza: “imagem e semelhança de Deus”. Deus é a Beleza, e a beleza só se manifesta a partir Dele.

São João Paulo II, grande admirador das artes, nos dizia que, através das suas obras, o artista estabelece comunicação com os outros e é por isso que a História da Arte não fala apenas das obras, mas também dos homens, pois “as obras de arte falam dos seus autores, dão a conhecer o seu íntimo e revelam o contributo original que eles oferecem à história da cultura”.

Neste tempo de grande crise de valores, é notável o distanciamento da beleza do seu elemento gerador, levando beleza e arte à crise. A desconstrução da arte, despreocupada em retratar a beleza, é sinal da desconstrução da identidade humana.

Tem se tornado cada vez mais recorrente ver notícias de exposições e movimentos artísticos que defendem a liberdade sexual, promovem vilipêndio religioso e etc.  Quando vemos a arte fazer alusão a certas ideologias é sinal de que os seus autores – e aqueles que os financiam e promovem – desejam revelar, têm a intenção de comunicar algo. A arte sensibiliza e por isso tem sido utilizada como canal para tornar comum aquilo que se quer impor à sociedade. As novelas apresentam temas como a ideologia de gênero, por exemplo, causando grande comoção nos expectadores. As músicas tratam da sexualidade de forma vulgar e banal. E mesmo que seja difícil convencer a sociedade de algo, recorre-se de maneira covarde àqueles que estão em processo de formação. Quando apresentamos algo às crianças, elas aprendem muito mais pela experiência sensível do que por conceitos. Expor crianças às “artes modernas” repletas de ideologias é utilizar-se da sua inocência para promover a doutrinação da sociedade.

Entendendo que a arte tem a capacidade de nos formar, nos envolver, unir o visível ao invisível, é preciso ter um olhar crítico diante dela para não permitir-se ser banhado por essas ideologias repletas de ilusões, mas antes promover a verdadeira liberdade que “abre o coração humano à nostalgia, ao desejo profundo de conhecer, de amar, de ir para o Alto, para o Além de si”, como afirma o Papa Bento XVI.

O Papa Paulo VI declarou que “o mundo em que vivemos tem necessidade de beleza para não cair no desespero. A beleza, como a verdade, é que traz alegria ao coração dos homens”, e por este motivo os artistas são por ele considerados como os guardiões da beleza, pois, se abertos ao sopro do Espírito Santo, podem promover através de seus dons a tradução da mensagem divina na linguagem das formas e das figuras.

Giselle Estupinhã – discípula da Com. Católica dom de Deus.

Referências:

BENTO XVI, Discurso por ocasião do encontro com os artistas na Capela Sistina (21 de novembro de 2009).

JOÃO PAULO II, Carta aos artistas (04 de abril de 1999).

PASTRO, Cláudio. O Deus da beleza: a educação através da beleza. São Paulo: Paulinas, 2008.

PAULO VI, Mensagem na conclusão do Concílio Vaticano II aos artistas (08 de dezembro de 1965).

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