Carisma e Vida: Santa Clara

“Eu sei que você é rica de virtudes e vou ser breve para não a sobrecarregar de palavras supérfluas, mesmo que não lhe pareça demasiado, nada que lhe possa dar alguma consolação. Mas, como uma coisa só é necessária, é só isso que eu confirmo, exortando-a por amor daquele a quem você se entregou como oferenda santa e agradável. Lembre-se da sua decisão (…). Não perca de vista seu ponto de partida, conserve o que você tem, faça o que está fazendo e não o deixe, mas, em rápida corrida, com passo ligeiro e pé seguro, de modo que seus passos nem recolham a poeira, confiante e alegra, avance com cuidado pelo caminho da bem-aventurança”.

                                        (2 Carta de Clara a Inês n.11).

 

Primogênita, Clara nasce a 16 de julho de 1194, seu nome foi dado por sua mãe, que pedindo proteção a Deus dos perigos do parto escuta uma voz misteriosa que dizia “Nada temas! Com felicidade serás mãe de uma filha. E esta filha há de aclarar o mundo inteiro com seu esplendor”. Clara nasce em uma família da mais alta aristocracia de Assis (na Itália), seu pai conde Faverone Scifi, valente e temido por todos, sua mãe Hortolana, piedosa e caritativa, dedicava-se às obras de misericórdia e gostava de fazer peregrinações. Teve duas irmãs. Sua irmã Catarina nasceu pouco tempo depois de Clara. Catarina ficou conhecida como Inês, nome dado por São Francisco, quando seguiu os passos da irmã Clara.  Alguns anos mais tarde nascera Beatriz, mais tarde; as irmãs iriam entrar para o convento junto com sua mãe, após esta ficar viúva.

São Francisco escreveu uma “Regra de Vida” para as freiras, a qual se resumia na prática da Pobreza Evangélica. E em 1215 obteve para elas a aprovação do Papa Inocêncio III. Nessa ocasião, Clara, por ordem expressa do Santo Fundador, aceitou o encargo de Abadessa. Estava fundada a Ordem das Clarissas.

Na vida de Santa Clara, podemos contemplar grandes graças místicas. Nossa baluarte traz em sua experiência espiritual uma ligação muito forte aos dons de cura e libertação. Foi favorecida com o  dom de operar milagres.

Clara amou a pobreza e fez dela o seu modo de vida porque o Filho de Deus, vindo a este mundo, escolheu ser pobre desde Belém até a Cruz. Na concepção de vida clariana, a alegria maior da pobreza consistia precisamente na possibilidade de restituir tudo ao Senhor, a exemplo de Jesus que, totalmente despojado na Cruz, restituiu sua vida (espírito) ao Pai: “E, inclinando a cabeça, entregou o espírito” (Jo 19,28-30).

As cartas de Clara são como uma fonte de água viva, inesgotável. Podem encher-se os cântaros da pobreza e humildade, da fé viva na Palavra de Deus, da virgindade, da alegria, da caridade, da oração de intercessão, da contemplação transformante do Mistério de Cristo, da doçura escondida, da evolução espiritual da mulher franciscana, da missão eclesial da Irmã Pobre, da união à Mãe dulcíssima ou maternidade espiritual, da espiritualidade esponsal, do Espelho da Eternidade… Podemos encher tantos cântaros, porque o poço é fundo. A linguagem vela e revela uma experiência de amor apaixonado a Jesus Cristo, uma experiência intrépida de seguimento evangélico e franciscano.

Clara não traça os passos de um caminho, porque o Caminho, a Verdade e a Vida é Jesus Cristo. Ensina a desejar, a olhar, a abraçar-se com amor apaixonante a Jesus Cristo como Espelho do Pai, sob a iluminação do Espírito Santo. Em inquebrantável fidelidade a São Francisco, ensina a nutrir-se, pela fé, das palavras do Evangelho. Exorta à união à Virgem, a peregrina da fé, para se viverem os mistérios de Cristo na Igreja. Ensina a desejar as virtudes como joias. Assim, a pobreza, a humildade, a doçura… Já não são um exercício mas tão somente o abraço com o próprio Jesus Cristo. Ilustra o exercício dos sentidos espirituais, especialmente o olhar que descobre a Formosura e o tato que percebe a suavidade do abraço.

A oração é, desde o princípio, contemplação amorosa e transformante. Fixa-se o olhar no espelho, Jesus Cristo, para mergulhar cada vez mais profundamente na Trindade. Ali se encontra a sabedoria e a doçura.

“Fixa o teu olhar no espelho da eternidade, deixa a tua alma banhar-se no esplendor da glória e une o teu coração Àquele que é encarnação da essência divina, para que, contemplando-O, te transformes inteiramente na imagem da sua divindade. Assim, também tu poderás experimentar o que só os amigos podem sentir quando saboreiam a doçura escondida que Deus reserva desde toda a eternidade àqueles que O amam. Despreza tudo o que neste mundo de enganos e perturbações cega o coração dos homens e ama de todo o coração Aquele que se entregou por teu amor e cuja beleza o sol e a lua contemplam. A grandeza e a abundância das suas recompensas não tem limites. Ama, repito, Aquele Filho do Deus altíssimo nascido da Virgem que O concebeu sem deixar de ser virgem. Vive unida à Mãe dulcíssima que deu à luz o Filho que nem os céus puderam conter.  E, todavia, ela o levou no pequeno claustro do seu ventre sagrado e o formou no seu seio de donzela.”(3 carta de Clara a Inês)

Contagia o seu fervor com uma linguagem vibrante, persuasiva, ungida de ternura. Levanta o voo da contemplação. Clara exorta ao amor. As belíssimas cartas de Clara constituem, juntamente com os outros escritos, um elemento precioso para aprofundar a sua espiritualidade.

Dama Pobre de Assis, por inspiração divina, encontrou o sentido fundamental de sua existência na pessoa de Jesus Cristo, o Filho de Deus que incondicionalmente assumiu a condição humana na forma de Servo, até a morte de Cruz. O mistério da encarnação do Filho de Deus, tal qual aconteceu, em pobreza e humildade, está na raiz da espiritualidade de Santa Clara.

A opção fundamental de vida de Santa Clara é pelo seguimento de Jesus Cristo pobre. Ela “já não queria mais nada a não ser Cristo”. E ao colocar-se diante de Jesus não tinha diante dos olhos um programa de virtudes a serem praticadas, mas estava diante de uma pessoa, que trazia uma proposta capaz de apaixonar e atrair discípulos e discípulas para a grande aventura de viver o Evangelho. O discípulo é amante de Alguém que atrai e fascina, porque encarna e concretiza os anseios humanos mais profundos.

Em sua vida, Clara realizou diversos milagres que fazia com o sinal e a virtude da santa Cruz :

“O Crucifixo amado correspondeu à amante que, acesa em tão grande amor pelo mistério da cruz, foi distinguida com sinais e milagres pelo seu poder. Quando fazia o sinal da cruz vivificante sobre os enfermos, afastava milagrosamente as doenças”.

Toda a experiência mística de Clara está alicerçada sobre uma humanidade que vivia a santa humildade, a santa e verdadeira Pobreza, a devoção ao admirável sacramento do altar e o ardente amor ao crucificado.

Gabriella Almeida – Consagrada Comunidade Católica dom de Deus

 

Referências Bibliográficas

  • Legenda de Santa Clara.
  • Testamento de Santa Clara
  • Fontes Franciscanas

 

 

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